Temperar leva tempo, feito comida de avó, que além do gosto surreal, ainda nos remete a lembranças de quando éramos crianças. Para quem tem a sorte de continuar cercado por esse amor divino, sabe o quanto é *vivido* todas as soluções para cada poção. Digo, uma bruxaria de bondades infinitas.
Os aromas infantis são sensacionais, me lembro do gosto da terra da rua
de onde eu morava. A poeira seca ao vento, adentrava pela garganta e preenchia
meus olhos, enquanto eu e meus amigos nos fantasiávamos de sermos os melhores
jogadores de futebol do mundo. E tínhamos total convicção de que erámos
realmente! E chorávamos quando o sangue escorria após uma daquelas “topadas” em
que não mais tínhamos o “tampão” do dedão.
Me perdoem as outras crianças, e principalmente as de hoje, pois a minha
infância foi de longe muito melhor! Cercada de aventuras esperadas e inesperadas.
Como os dias de vento forte, em que ficávamos feito águias olhando para céu,
aqueles olhos já vermelhos, os pés pretos de fuligem das áreas queimadas, para
o pasto novo, *os lábios ressecados do sol e da saliva que se expelia da língua
que sempre ficara de fora*. Por lá ficávamos longas horas, até que de
repente, uma pipa vinha em sua dança de vento, em nossa direção. Toda meninada
se alvoroçava, tentando encontrar no quebra-cabeça do matagal a melhor direção
para capturar o “pássaro feito de bambu, papel e linha”! Era uma aventura
totalmente não planejada, mas chegávamos fatigados em casa. Tínhamos hora certa
para estar em casa, *no meu caso, o grito ecoava com um*: “OH!
DAVIEEEEEEEEEE!!! Esse grito é eternizado na minha mente, como uma lembrança
segura de felicidade, provavelmente se eu tivesse um “Patrono” como no Harry
Potter, a minha lembrança mais feliz seria essa, pois nós tínhamos um lugar
para onde voltar! E após o banho, sob ameaça de uma surra, partíamos para a
feitura das “rabiolas” que comporiam as pipas do dia seguinte.
Esse tempero inegável da infância deveria ser uma lei universal, toda
criança deveria experimentar!
Muitos de vocês que estão lendo, pensaram com nostalgia em suas
infâncias. Agora, imagine se alguém que ler, nunca tiver experimentado a chance
de brincar de carrinho de rolimã e assistir aqueles tombos fantásticos,
assustadores às vezes, mas cheios de imaginação? Não consigo conceber o fato de
uma criança não ter brincado de pular corda, ou mesmo, as tantas brincadeiras
de roda, *bolinhas de gude (escaps! Donadis!)* não erámos, meninos e meninas,
eramos nós, apenas crianças.
O monstro da escola logo cedo nos encontrou na aventura, o temíamos, e
muitos o temem até hoje, mesmo sendo crescidos. O que nunca percebíamos era que
todo dia, sem falta, participávamos de uma jornada, os professores, que com
carinho me lembro, todos os dias nos ajudavam a derrotar os tentáculos do
monstro que nos enjaulava. Muito drama, choro e atitudes exageradas, às até
vezes egocêntricas! Mas no santíssimo recreio, a comida era “engolida”, e o
pega-pega era frenético. Voltávamos com um certo odor e continuávamos o nosso
embate, contra a “guilda de diabretes” e a sonolência de tantos doces que nos
agitavam e nos derrubavam. Esse “Bicho-Papão” era poderosíssimo!
Batia o sinal e mais uma aventura era iniciada. Mamonas eram arrancadas
e a meninada se espalhava, explosões e efeitos sonoros eram imaginados, os
heróis eram desenterrados e lá na descida de casa eram travadas as batalhas
mais memoráveis! Mais do que qualquer filme da Marvel, DC ou Disney, porque ali
era a “Imaginação Real”, sem viseiras nem especialistas, éramos só nós,
crianças, e roubando a Anne de Green Gables , tínhamos puro “escopo para a
imaginação”!
Hoje, vejo que minha aventura infantil nunca será esquecida, ela está
tão fundo dentro do amor que sinto, que é indissociável. Todo tempero e aroma
são atemporais em minha existência.
Esse texto, escrevo não para as crianças, mas sim para os “crescidos”,
que em muitos momentos se esquecem que uma criança que não brinca é um
adulto aleijado. Não queremos isso para quem amamos! Me ajudem a enfrentar o
monstro que cresceu em proporções gigantescas, o monstro da falta de
imaginação.
Prof. Davi Almeida
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